MANOEL PORFÍRIO: Confronto na tribuna e promoção de obra do Executivo expõem inversão do papel do Legislativo

Na mesma semana, presidente da Câmara reage a críticas e aparece divulgando obra do prefeito, levantando dúvidas sobre independência do Legislativo

Na mesma semana, o presidente da Câmara de Itabuna adotou duas posturas públicas que chamam atenção. Na tribuna, utilizou o espaço institucional para rebater críticas em tom de confronto. Dias depois, apareceu em vídeo na Rua Campo Verde, no bairro Sarinha, destacando obra de pavimentação autorizada pelo prefeito e associando a ação a um “novo tempo” na cidade.

O problema não está em falar, está em como e para quê se fala.

A tribuna não é espaço para recado pessoal. É espaço de prestação de contas. Quando esse espaço é usado para confronto, o debate público perde qualidade.

Da mesma forma, vereador não executa obra. Vereador fiscaliza obra. Quando o parlamentar aparece promovendo ação do Executivo, ele atravessa uma linha perigosa: deixa de cobrar para começar a legitimar.

E aqui está o ponto central:
quem deveria fiscalizar não pode se comportar como divulgador.

Há uma contradição evidente. Enquanto o discurso critica a “politicagem”, a prática se aproxima dela. Enquanto fala em responsabilidade institucional, a atuação mistura função pública com promoção política.

No caso do presidente da Câmara, o problema é maior. Ele não representa apenas um mandato, representa o equilíbrio do Legislativo. Quando assume postura de enfrentamento e, ao mesmo tempo, reforça a imagem do Executivo, a independência da Câmara fica comprometida.

A população não precisa de discurso forte. Precisa de controle forte.

Enquanto a cidade enfrenta desafios reais, o que se vê é:

  • tribuna usada para reação política
  • obra pública sendo apresentada como conquista política

Isso distorce a função do cargo e enfraquece a fiscalização.

O papel do vereador é claro:
cobrar prazos, exigir qualidade, fiscalizar contratos e defender o interesse público.

Não é anunciar obra. Não é fazer propaganda de gestão.

Se o fiscal vira divulgador e o debate vira confronto, quem fica responsável por cobrar o que realmente precisa ser feito?

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