ITABUNA TROCA ÁRVORES POR CONCRETO?

Supressão de árvores em praças, avenidas e obras públicas começa a levantar debate sobre calor urbano, paisagismo e modelo de cidade adotado pela gestão municipal

A retirada de árvores durante a reforma da Praça do Góes Calmon reacendeu um debate que já vinha crescendo silenciosamente em Itabuna. O problema é que o caso não é isolado.

Nos últimos anos, diferentes obras de requalificação urbana executadas pela Prefeitura passaram a ser acompanhadas de cortes de árvores adultas em áreas públicas da cidade. A discussão já apareceu na Orla da Beira-Rio, em intervenções viárias e agora voltou ao centro do debate após vídeos mostrarem máquinas atuando em meio à arborização da Praça do Góes Calmon.

Nas imagens gravadas no local, moradores questionam a supressão de árvores que, segundo eles, deveriam ser preservadas conforme o projeto apresentado inicialmente. Troncos cortados, galhos espalhados e equipamentos de obra passaram a simbolizar uma crítica cada vez mais presente: Itabuna estaria adotando um modelo de urbanização que privilegia concreto, estética e circulação viária, enquanto reduz sombra e conforto climático.

E aqui entra uma questão técnica importante.

Árvore adulta não é apenas elemento decorativo. Ela exerce função ambiental e urbana direta:

  • reduz temperatura;
  • diminui ilhas de calor;
  • melhora drenagem;
  • reduz poeira;
  • absorve carbono;
  • cria conforto para circulação de pedestres;
  • e fortalece a convivência nos espaços públicos.

Quando uma cidade remove árvores maduras, ela perde imediatamente esses benefícios. Já o replantio de mudas, frequentemente utilizado como compensação ambiental, leva anos ou até décadas para produzir o mesmo efeito climático.

Essa é justamente a principal crítica feita por urbanistas em várias cidades brasileiras: compensação numérica não significa compensação funcional.

Na prática, uma muda de 1 metro não substitui uma copa consolidada de 20 ou 30 anos.

Outro ponto que chama atenção em Itabuna é o padrão visual das novas obras. Muitas intervenções recentes seguem a mesma lógica:
mais piso,
mais concreto,
mais áreas abertas,
menos cobertura vegetal.

A gestão municipal sustenta que as intervenções fazem parte de projetos de mobilidade urbana, revitalização e modernização da cidade. Em algumas ocasiões, também afirmou existir compensação ambiental para árvores removidas.

O problema é que a transparência técnica dessas supressões raramente chega de forma clara para a população.

Quais espécies foram retiradas?
Quantas árvores foram suprimidas?
Quais laudos autorizaram?
Houve estudo de impacto térmico?
O replantio ocorrerá na mesma região afetada?
Quantas árvores efetivamente sobreviverão?

Sem essas respostas públicas, cresce a percepção de que a cidade está substituindo arborização consolidada por paisagismo de curto prazo.

E existe ainda um aspecto político delicado nisso tudo:
Itabuna já enfrenta temperaturas elevadas, deficiência de áreas verdes e problemas históricos de ocupação urbana desordenada. Em cidades assim, retirar sombra não é apenas uma decisão estética. É uma decisão que afeta diretamente a qualidade de vida.

A própria Orla da Beira-Rio já havia sido alvo de críticas semelhantes durante as obras. Moradores registraram remoção de árvores e questionaram a perda de áreas sombreadas em um dos principais cartões-postais urbanos do município.

Enquanto isso, cidades modernas no Brasil e no mundo caminham no sentido contrário:

  • ampliação de corredores verdes;
  • proteção de árvores antigas;
  • criação de microclimas urbanos;
  • redução de concreto exposto;
  • incentivo à mobilidade humana e não apenas veicular.

Porque cidade inteligente não é a que apenas entrega obra rápida e bonita na inauguração.

É a que consegue manter pessoas caminhando, convivendo e respirando melhor anos depois da fita cortada.

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