Autor: Marcos Pastor

  • Ação social da Prefeitura confunde gestão pública com promoção política

    Vídeo divulgado durante o Carnaval antecipado de Itabuna mostra um particular, esposo da diretora do Sistema Único de Assistência Social (SUAS) da Secretaria Municipal de Promoção Social (SEMPS), atuando publicamente em ação social vinculada a evento oficial e promovendo, de forma explícita, a imagem da primeira-dama e pré-candidata a deputada estadual, Andréia Castro.

    A gravação associa diretamente a arrecadação de alimentos e ração ao nome da primeira-dama, com elogios reiterados, slogans políticos e narrativa de êxito pessoal, em espaço estruturado e financiado com recursos públicos.

    Do ponto de vista administrativo, o episódio expõe a confusão entre política pública e promoção pessoal. A Constituição exige que ações institucionais sigam o princípio da impessoalidade, o que impede o uso de programas, eventos ou ações sociais para exaltar agentes públicos ou pré-candidatos.

    A ação solidária não é o problema. O problema é sua personalização e o uso simbólico da máquina pública para construção de imagem política, prática que exige atenção dos órgãos de controle e esclarecimentos por parte da gestão municipal.

  • Prefeito usa identificação oficial do cargo em evento festivo e levanta debate sobre personalização da gestão pública

    Prefeito usa identificação oficial do cargo em evento festivo e levanta debate sobre personalização da gestão pública

    Durante o Carnaval antecipado de Itabuna, o prefeito Augusto Castro circulou no circuito usando camisa com a identificação “Prefeito” e concedeu entrevistas em meio à programação do evento.

    A presença do gestor é legítima. A exibição explícita do cargo, não. Cargo público é função temporária, exercida em nome do interesse coletivo, não ferramenta de promoção pessoal.

    O princípio da impessoalidade administrativa, em termos simples, significa o seguinte: a prefeitura não tem dono, o cargo não é do prefeito e o dinheiro usado não é particular. O gestor passa, o cargo fica. A máquina pública existe para servir à população, não para destacar quem está no comando.

    Em evento financiado direta ou indiretamente com recursos públicos, a estampa do cargo reforça a personalização da gestão e tensiona esse princípio básico da administração pública.

    Em gestão pública, símbolo comunica poder.

    E poder exige limite, não marketing.

  • Quando o social vira propaganda: Exposição institucional intensa levanta debate sobre foco da gestão e prioridade da assistência social

    A divulgação do chamado “Acesso Solidário” ganhou espaço relevante nas redes e na imprensa local. O que chama atenção não é apenas a ação em si, mas o volume e a sequência de aparições públicas relacionadas ao tema.

    Primeiro, o presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania, Aldo Rebouças, concedeu entrevistas associando o Carnaval à responsabilidade social. Depois, a primeira-dama Andrea Castro passou a protagonizar matérias institucionais sobre a iniciativa. Na sequência, a servidora Suse Mayre Martins Moreira Azevedo apareceu em vídeo oficial reforçando o pedido de doações.

    Os fatos são públicos e verificáveis. A pergunta que surge é administrativa, não pessoal: por que a comunicação ocupa tanto espaço enquanto dados sobre execução orçamentária, metas da Secretaria de Promoção Social e resultados permanentes da política assistencial não recebem a mesma visibilidade?

    Assistência social é política pública contínua, prevista em orçamento e submetida a controle e prestação de contas. Ações pontuais podem complementar, mas não substituir planejamento estruturado.

    Quando o marketing institucional passa a ser mais visível do que números, relatórios e indicadores, o debate deixa de ser sobre solidariedade e passa a ser sobre prioridade. Transparência não é discurso, é dado concreto. E política pública se mede por execução, não por exposição.

  • Prefeito e primeira-dama mobilizam ônibus e servidores em dia útil para Lavagem do Bonfim em Salvador

    Deslocamento para agenda fora da cidade levanta questionamentos sobre uso da estrutura administrativa

    Informações que circulam em grupos políticos e bastidores administrativos apontam que o prefeito e a primeira-dama participaram de agenda em Salvador acompanhados por, ao menos, três ônibus com pessoas ligadas à Prefeitura de Itabuna, além de servidores que teriam se deslocado em veículos próprios. O fato teria ocorrido em pleno dia útil.

    Relatos indicam possível esvaziamento de setores da administração durante o expediente. Até o momento, não houve divulgação oficial detalhando a natureza institucional do evento, a eventual liberação formal de servidores, a compensação de jornada ou a fonte de custeio do transporte.

    A legislação brasileira estabelece limites claros quanto ao uso de servidores, veículos e recursos públicos. A Constituição Federal impõe os princípios da legalidade, impessoalidade e moralidade administrativa. A legislação eleitoral também veda o uso da máquina pública para fins de promoção pessoal ou política.

    Diante das informações, as perguntas são objetivas: houve autorização formal para o deslocamento? A agenda era estritamente institucional? Quem arcou com os custos do transporte? Houve prejuízo ao funcionamento dos serviços públicos?

    Transparência não é ataque político. É dever legal e respeito ao cidadão.

  • LOA 2026 prevê R$ 11,7 milhões para a Secretaria de Esporte, sendo R$ 7 milhões por meio de empréstimo. Entregas estruturais continuam sem conclusão.

    A Lei Orçamentária Anual de 2026 destina R$ 11.777.400,00 à Secretaria de Esporte e Lazer de Itabuna. Do total previsto, R$ 7 milhões são classificados como operações de crédito, ou seja, recursos obtidos por meio de financiamento que deverão ser pagos futuramente pelo município.

    O orçamento chama atenção não apenas pelo valor, mas pela proporção financiada por dívida pública. Mais de metade dos recursos da pasta dependem de crédito.

    Embora existam registros de realização de eventos esportivos, campeonatos e ações comunitárias, não há até o momento entrega de obra estruturante concluída, como o Estádio anunciado em diferentes momentos como prioridade. Também não se identificam, nos registros públicos disponíveis, programas permanentes com metas e indicadores amplamente divulgados.

    Quando o orçamento cresce e a principal obra permanece inconclusa, a pergunta é legítima: qual é o impacto real desse investimento para a população?

    Planejamento orçamentário exige coerência entre previsão e resultado. Sem isso, o número vira apenas cifra no papel.

  • R$ 3,42 milhões em trios elétricos em ano eleitoral levantam debate sobre prioridades e exposição política em Itabuna

    R$ 3,42 milhões em trios elétricos em ano eleitoral levantam debate sobre prioridades e exposição política em Itabuna

    Carnaval é manifestação cultural legítima e pertence ao povo. Se há festa, que a população participe. O recurso é público, portanto é da própria cidade. O que merece reflexão não é a alegria nas ruas, mas o contexto.

    A Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania homologou contrato de R$ 3,42 milhões para locação de trios elétricos, conforme publicação no Diário Oficial. O ato é formal, legal e público. A questão é outra: trata-se de prioridade adequada diante da realidade atual do município?

    Estamos em ano eleitoral. Paralelamente, a primeira-dama é tratada nos bastidores como pré-candidata. Eventos de grande visibilidade naturalmente ampliam exposição e capital político. Não há ilegalidade nisso. Mas é legítimo perguntar se a festa cumpre apenas função cultural ou também estratégica.

    Enquanto o trio desfila duas vezes no circuito, a Feira do São Caetano segue sem conclusão após três anos, o Hospital de Base enfrenta relatos de falta de insumos, as ruas continuam esburacadas, a conta de água sofreu reajustes e os salários dos vereadores foram aumentados.

    Gestão pública envolve escolhas. A publicação oficial mostra onde parte do recurso está sendo direcionada. O eleitor, por sua vez, precisa avaliar se concorda com essa ordem de prioridades.

    Carnaval passa. Mandatos passam. Candidaturas passam.

    O que permanece é a memória do cidadão sobre como e quando o dinheiro público foi aplicado.

  • Acesso solidário ou privilégio em evento público?

    Quando a cultura financiada com recursos públicos passa a carregar assinatura política, o alerta é institucional.

    Em entrevista recente, o presidente da Fundação Itabunense de Cultura e Cidadania atribuiu à primeira-dama e pré-candidata a deputada estadual Andreia Castro a criação do chamado “acesso solidário” para evento promovido com apoio da Prefeitura de Itabuna.

    Pelo modelo anunciado, quem levar alimentos, produtos de higiene ou ração animal terá entrada mais rápida no evento, inclusive na fila de revista realizada pela Polícia Militar da Bahia. Ainda que o termo “fura-fila” seja evitado, há diferenciação objetiva de acesso.

    A discussão não é sobre a importância da doação. A questão é outra: em evento custeado com recursos públicos, é legítimo condicionar vantagem de acesso a quem aderir a uma campanha vinculada à imagem de agente político em contexto pré-eleitoral?

    A Constituição impõe à administração pública princípios como impessoalidade e isonomia. Políticas culturais devem servir ao interesse coletivo, sem distinções entre cidadãos e sem associação personalizada que possa sugerir promoção individual.

    Quando ação pública ganha autoria exaltada e capital simbólico eleitoral, a fronteira entre gestão e politização merece ser observada com cautela.

    A pergunta é simples e objetiva: trata-se de política pública estruturada ou de estratégia de imagem em ambiente financiado pelo contribuinte?

  • Quem ganha mais manda mais?

    Gratificações de função sem decreto levantam questionamentos sobre legalidade e hierarquia administrativa

    Enquanto a Prefeitura de Itabuna pede compreensão da população diante das dificuldades financeiras, dados disponíveis no Portal da Transparência revelam uma situação que exige explicação formal.

    Registros oficiais mostram que servidores do setor de tributos e alguns lotados na Secretaria da Fazenda receberam gratificações de função de forma contínua ao longo do ano, com impacto direto na remuneração. Em ao menos um caso, o salário bruto registrado em dezembro superou a remuneração do próprio secretário da pasta, criando uma inversão hierárquica interna.

    O ponto central, porém, não é apenas o valor. Até o fechamento desta matéria, não foi localizado decreto do Poder Executivo formalizando e motivando a concessão dessas gratificações, indicando quais servidores seriam contemplados e quais razões administrativas justificariam o ato.

    Pela legislação que rege a administração pública, o ato que concede gratificação deve ser formal, motivado e publicado. A ausência de decreto ou de motivação expressa compromete a validade do ato e dificulta o controle social sobre a despesa pública.

    Todos os dados citados constam no site oficial da Transparência do Município e podem ser verificados por qualquer cidadão. A pergunta que permanece é objetiva: qual o fundamento legal específico que autorizou essas concessões?

    O debate não é político. É administrativo. E transparência, nesse caso, é obrigação.

  • Justiça suspende reajuste da EMASA e reacende debate sobre reação da sociedade

    Decisão judicial interrompe aumento de 7,5% e reforça que o controle dos atos públicos também passa pelo cidadão

    A suspensão do reajuste de 7,5% nas tarifas de água e esgoto de Itabuna, autorizado pelo Decreto Municipal nº 16.656/2025, recoloca no centro da discussão um ponto essencial: até onde vai o poder do Executivo para majorar tarifas sem ampla transparência e participação social?

    A decisão, proferida pela Vara do Recesso Cível no processo nº 8000003-42.2026.8.05.0113, atendeu a ação popular ajuizada por um cidadão, questionando a legalidade da chamada revisão tarifária extraordinária. O magistrado apontou indícios de uso inadequado desse instrumento, reservado a situações excepcionais, além de mencionar ausência de audiência pública, estudos técnicos amplamente divulgados e participação social efetiva.

    Também foi considerado o fato de se tratar do segundo aumento em menos de 12 meses, circunstância que suscita debate sobre modicidade tarifária e anualidade.

    A tutela de urgência mantém as tarifas nos valores anteriores até julgamento final.

    Mais do que discutir percentuais, a decisão reacende uma questão maior: quando há dúvidas sobre legalidade, transparência ou proporcionalidade de um ato administrativo, o cidadão deve aceitar passivamente ou utilizar os instrumentos previstos na Constituição?

    A resposta institucional foi clara. Provocada, a Justiça analisou.

    O debate agora não é apenas sobre tarifa. É sobre participação, fiscalização e responsabilidade pública.

  • Enquanto a Feira adoece, a Câmara dorme e o prefeito faz festa

    Feirantes relatam queda de renda, adoecimento e abandono, enquanto Legislativo entra em recesso após reajuste salarial

    A Feira do São Caetano, tradicional ponto de sustento de dezenas de famílias em Itabuna, vive um momento de forte tensão econômica e humana. Relatos encaminhados ao blog indicam que feirantes enfrentam queda significativa nas vendas, acúmulo de dívidas e abalo emocional profundo.

    Dois trabalhadores do setor de açougue, conhecidos na comunidade, sofreram Acidente Vascular Cerebral após um período descrito por pessoas próximas como marcado por intensa pressão financeira e insegurança quanto ao futuro. Um deles encontra-se acamado, dependendo de ajuda para cuidados básicos. São fatos relatados por familiares e colegas, que expõem uma realidade preocupante dentro da feira.

    Paralelamente, a Câmara Municipal encontra-se em recesso parlamentar. Antes da pausa, aprovou reajuste salarial para os próprios vereadores, decisão registrada em sessão oficial. A medida ocorreu em meio às dificuldades enfrentadas por trabalhadores da cidade.

    No Executivo, a agenda institucional segue com realização de eventos públicos e festividades.

    Diante desse cenário, a pergunta é inevitável: houve avaliação formal do impacto das mudanças na feira sobre a saúde e a renda dos feirantes? Existe algum plano emergencial de apoio social ou econômico? A Câmara pretende discutir o tema quando retomar os trabalhos?

    A Feira do São Caetano não é apenas um espaço comercial. É fonte de subsistência. Quando trabalhadores adoecem, o debate deixa de ser político e passa a ser humano.